A
mais inconcebível das lorotas
(O GLOBO – 18.07.93)
SIDNEY
GARAMBONE
É
tudo mentira. National Kid nunca foi colorido. Nasceu e sumiu em preto e
branco. Esse senhor japonês, Daiji Kazumine, está mentindo com a maior
cara de pauzinho. Vê se pode, dizer que criou National
Kid. Pois sim. Super-herói ninguém cria. Eles existem. Existem para
distrair a gente antes de ir para a escola. Antes do professor real, o
professor Masao Hata. “Nós queremos comer, nós estamos famintos, nós
queremos comer ... Nationarokido ! Ná! Nacionalalokido. Kido!” Não era
exatamente assim a melodia. As notas e acordes sempre vão variar de criança
a criança. Aliás, crianças que não cresceram nunca. Preferiram ficar
atentas, protegendo a Terra dos Incas Venusianos e dos Seres Abissais.
Cumprindo disciplinadamente um pedido feito por Massa Hata antes de sumir
misteriosamente, seqüestrado para sempre do nosso imaginário. Pior não
é isso. Vem do Japão também a notícia que um tal de Ischiro Kojima
interpretava National Kid. Que palhaçada é essa ? Alguém interpretou
Jesus Cristo ? Por acaso Garrincha era um ator ? Até parece que National
Kid não era de carne e osso. Só ele era capaz de balançar a anteninha
frontal daquela maneira. Galante, nunca eliminou inimigos. Apenas os
convidava educadamente a abandonar o planeta. Até que um dia resolveu
também abandonar a Terra. Talvez, por facilitar nossa tarefa foi
enfrentar os malvados seres no espaço sideral. Continuaremos aguardando
seu retorno. Sempre.
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Cláudio
Paiva
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Andréa Beltrão
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(GLOBO – 01.11.91 – Fotos de Monique Cabral)
A
atriz Andréa Beltrão também é uma National Kid-maníaca. Ela ainda
guarda a reprodução do paladino japonês feita por Cláudia Paiva em
decorrência de uma de suas festas de aniversário, precisamente em 1991.
O objeto hoje é peça fundamental na decoração da sua casa. – Tenho
também muita cópia do filme – revela a atriz. O artista plástico
Jorge Barrão, o ator Felipe Pinheiro, o músico Tim Rescala e a ex-Blitz
Márcia Bulcão, também não perdiam as aventuras do herói, Barrão e Márcia
chegam a confessar que, ainda hoje, se permitem assistir as aventuras dos
“netos” Jaspion e Changemam. – O mais curioso é que o Japão
evoluiu muito tecnologicamente mas esses filmes continuam os mesmos –
observa a cantora. Não parece, mas National Kid tem lá o seu background
cultural. Assim como o Super-Homem, que surgiu em plena Depressão
Americana, o herói japonês apareceu quando aquele país asiático vivia
sua ressaca do Pós-Guerra. Apesar dos seus saltos desengonçados e da ridícula
bolinha que tem sobre o capacete, National Kid, se não lançou, ao menos
ajudou a difundir os preceitos fundamentais do progresso no Japão:
conhecimento, trabalho especializado e em equipe. Até os cinco garotos
que estavam sempre ao lado de National Kid têm uma justificativa. Após a
derrota para os aliados, o Japão tinha mesmo nas ruas de suas cidades
meninos órfãos. Esteticamente, o super-herói é um fracasso. Sua máscara
lembra a do Zorro e a capa, num rasgo de inovação nipônica, divide-se
ao meio, permitindo que National Kid segure suas duas pontas, quando voa
de braços abertos. É muito engraçado ver National Kid lutando contra os
Incas Venusianos, numa caratê de quinta. As técnicas de efeitos
especiais impressionam, pois foram feitas há mais de 30 anos. Erros de
continuidade devem ser perdoados. Mas bom mesmo é relembrar o nome
daqueles personagens fantásticos.
(O GLOBO
– 01/11/1991)
CLÁUDIO
HENRIQUE
Toda
uma geração tem a programação infantil de TV que merece. O avô de
todos os Jaspions (e mesmo os He-man da vida) tinha ar patético, olhos
quase fechados, pernas tortas e gargalhadas em tom de deboche. Apesar
disso, foi o primeiro super-herói da televisão brasileira, referencial
na infância dos chamados “filhos da revolução”. Ele sobreviveu aos
tantos incêndios nas Tvs do Rio e São Paulo, deixou a estrela Andrômedra
– para onde partiu no final da série. Produção japonesa de 1961, a série
foi lançada no Brasil em 1965. Curiosamente, em nenhum outro lugar do
Mundo fez tanto sucesso. Quem tem de 35 a 45 anos, fatalmente vibrou com
esta caricatura nissei do Super-Homem. A série, criada pela fábrica de
aparelhos eletrônicos National, foi pioneira no merchandising em TV, hoje
tão comum nas novelas. No episódio dos Incas, o garoto propaganda
Ischiro Kojima – primeiro ator a protagonizar National Kid – chega a
tirar do bolso um radinho de pilha da marca. Reza a lenda, que, na década
de 60, National Kid não surgiu apenas para salvar a humanidade, mas também
a então emergente indústria japonesa. Definitivamente NATIONAL KID se
tornou um verdadeiro cult.
Encontrado
em Tóquio pelo O GLOBO, o criador de National Kid
fica sabendo que o personagem marcou uma geração de brasileiros
(O GLOBO
– 01/11/1991)
EDUARDO MACK
TÓQUIO
- Atenção, fã de National Kid! O super-herói de olhos puxados. que
marcou profundamente toda uma geração nos anos 60, continua vivo ! O incêndio
na TV Record em São Paulo em 1968 pode ter destruído as fitas de um dos
mais populares seriados de TV no Brasil, mas o criador do implacável
herói que lutou contra as forças do mal encarnadas nos Incas Venusianos,
nos seres abissais, nos subterrâneos ou Zarrocos continua cultivando a
imagem de seu personagem no Japão. O desenhista Daiji Kazumine, 57
anos, vive nos subúrbios de Tóquio, onde está preparando uma série em
quadrinhos sobre heróis da história do Japão, como os senhores feudais
do século XVI.
Em
1957, aos 21 anos, Kazumine desenhava histórias em quadrinhos para a
revista “Vokura”, publicada pela editora Kodanska. Em 1960, a National
Matsushita Eletronics (hoje National Panasonic) teve uma grande sacada
para explorar a popularidade das HQs e da TV entre as crianças e aumentar
suas vendas de pilhas e outros produtos. A empresa pediu para Kazumine
criar um personagem com poderes especiais que lutasse pela paz no mundo.
Ele levaria o nome da empresa e posteriormente se transformaria num
seriado de TV no Canal 10 produzido pela Toei Company. Foi o nascimento de
National Kid.
Falando
com exclusividade para O Globo num hotel no Centro de Tóquio, Kazumine
não pode esconder a surpresa e emoção ao saber que seu personagem era
um cult no Brasil:
-
É a primeira vez em minha vida que eu ouço falar nisso, mas tenho que
confessar que fico muito feliz com essa popularidade – disse.
Vestido
como um típico representante da geração flower power, com uma fita no
cabelo, Kazumine fez questão de enfatizar que National Kid foi inspirado
no sentimento generalizado no Japão do pós-guerra de pôr fim aos
testes nucleares.
Nos
episódios de National Kid sempre houve muita luta, mas não havia
estimulo à violência. A idéia era proteger a paz
no mundo para evitar os perigos. Nunca havia morte de seres humanos
– esclareceu.
Quanto
à curta duração do personagem na Tv, Kazumine explicou que nos anos
60 todos os seriados tinham uma vida útil de três meses, mas o sucesso
de National Kid justificou uma prolongação. Ficou no ar de 4
de agosto de 1960 ate 27 de abril de 1961. Logo depois vieram
outros super-heróis, como Astroboy,
o que praticamente pôs fim às aventuras de National Kid na TV.
A
proposta de defender a paz mundial através dos episódios de National
Kid
renderam a Kazumine o privilégio de ter publicado no prefácio das
HQ uma carta do secretário de Educação japonês recomendando a leitura
para as crianças.
-
Apesar do desaparecimento do seriado, a geração dos anos 60 do Japão
também tem saudades das aventuras de National Kid – garante.
Ele
acredita que foi esse o interesse dos japoneses pelo paradeiro do National
Kid que fez a editora Earth Shuppan trazer as HQ de volta para as
livrarias
de Tóquio.
Ganhei
um bom dinheiro com os direitos autorais e participação nos lucros da
produção das aventuras de National Kid – admite.
Homem
de origem simples e com poucas ambições materiais, o talentoso artista
fica orgulhoso de dizer que ainda tem muito para mostrar às futuras
gerações. Kazumine gosta de se envolver em novos projetos:
-
Eu quero desenhar agora a vida das pessoas de classe média-baixa que
viveram em outras épocas. Através desses
desenhos nossas crianças poderão compreender melhor a vida dura por que
passaram outras gerações japonesas.